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Açúcar deixa criança hiperativa?

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02 de setembro de 2026 • 7 min de leitura

Mesa de festa infantil com bolo e doces.

Você provavelmente já viu a cena: festa de aniversário, as crianças atacam o bolo e os doces, e em pouco tempo estão correndo pela casa, gritando, sem conseguir parar quietas. O diagnóstico coletivo é sempre o mesmo: "é o açúcar, deu pico nelas".

Essa é uma das crenças mais firmes da criação de filhos — e também uma das mais bem estudadas. Ao longo de décadas, pesquisadores testaram a ideia de "pico de açúcar" em experimentos controlados, dando açúcar de verdade ou adoçante placebo sem que crianças, pais ou avaliadores soubessem quem recebeu o quê. O resultado, repetido em dezenas de estudos: o açúcar não altera o comportamento nem o desempenho cognitivo das crianças.

Isso não significa que açúcar em excesso seja inofensivo — significa que a agitação da festa tem outras causas. Vamos por partes.

O que os experimentos encontraram

Em 1995, a revista JAMA publicou uma meta-análise conduzida por Mark Wolraich e colegas. Uma meta-análise reúne os dados de vários estudos independentes sobre a mesma pergunta e analisa tudo junto, para ter um resultado mais confiável do que qualquer estudo isolado.

Os autores juntaram 23 estudos, todos com o padrão-ouro de rigor: duplo-cego e controlado por placebo. As crianças recebiam, em dias diferentes, uma bebida ou alimento com açúcar (sacarose) ou com adoçante sem calorias, e ninguém envolvido sabia qual era qual até o fim. Depois, o comportamento e o desempenho em tarefas eram medidos de forma padronizada.

A conclusão: o açúcar não teve efeito sobre o comportamento nem sobre a cognição das crianças. Isso valeu inclusive para:

  • crianças que os pais descreviam como "sensíveis ao açúcar";
  • crianças com diagnóstico de TDAH;
  • diferentes doses de açúcar.

Estudos posteriores, com o mesmo desenho, chegaram repetidamente à mesma resposta. Poucos mitos de nutrição foram testados tantas vezes, de forma tão controlada, com um resultado tão consistente.

O experimento que explica a percepção

Se o açúcar não faz efeito, por que tantos pais juram ter visto o filho "descontrolar" depois do doce?

Um estudo de Daniel Hoover e Richard Milich, de 1994, ajuda a responder. Os pesquisadores pegaram mães que se diziam certas de que os filhos eram sensíveis ao açúcar. Deram a todas as crianças uma bebida sem açúcar nenhum — mas dividiram as mães em dois grupos: para metade, disseram que a criança tinha recebido uma grande dose de açúcar; para a outra metade, disseram a verdade (placebo).

As mães que acreditavam que o filho tinha tomado açúcar avaliaram o comportamento dele como significativamente mais hiperativo. Não só isso: filmadas interagindo com a criança, essas mães ficaram mais próximas, mais críticas e mais controladoras — comportamento que, por si só, deixa a criança mais agitada.

Ou seja: a expectativa do adulto muda tanto o que ele enxerga quanto o que ele faz. A criança recebeu placebo, mas a mãe que "sabia" do açúcar viu um filho elétrico — e ajudou a criar um.

Por que a festa parece um caos, então

Porque uma festa infantil é feita de tudo o que realmente deixa criança agitada, ao mesmo tempo:

  • Um monte de crianças juntas, se estimulando umas às outras.
  • Novidade e empolgação — lugar diferente, brinquedos, presentes.
  • Rotina quebrada — horário de comer, de dormir e de brincar todo fora do normal.
  • Ficar acordada além da hora, o que paradoxalmente costuma deixar criança pequena mais elétrica, não mais sonolenta.
  • Espaço aberto para correr e permissão social para gritar.

Tira o bolo dessa equação e as crianças continuam pulando. O açúcar virou o culpado conveniente porque é a única coisa nova que entrou "no corpo" — mas correlação não é causa, e quando alguém controlou as variáveis, o efeito sumiu.

O que isso não quer dizer

Aqui está a parte importante para não sair do artigo com a mensagem errada.

"Açúcar não deixa a criança hiperativa" não é o mesmo que "açúcar faz bem" ou "pode à vontade". Consumo alto de açúcar de adição está associado a problemas reais e bem documentados:

  • Cáries — o açúcar é o principal combustível das bactérias que corroem o esmalte dos dentes.
  • Ganho de peso e maior risco de obesidade infantil, quando desloca alimentos mais nutritivos e adiciona calorias vazias.
  • Piora do perfil metabólico a longo prazo, principalmente via bebidas açucaradas (refrigerante, suco de caixinha).
  • Paladar ajustado para doçura intensa, o que dificulta a aceitação de comida menos doce.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que o açúcar de adição fique abaixo de 10% das calorias diárias, com benefício adicional em ficar abaixo de 5%. Para crianças pequenas, várias sociedades de pediatria recomendam zero açúcar de adição antes dos 2 anos.

Então há motivos sólidos para segurar o açúcar na alimentação infantil. "Deixa elétrico" simplesmente não é um deles.

Na prática

  • Limite o açúcar de adição pelos motivos certos: saúde bucal, qualidade geral da dieta, peso — não pelo comportamento.
  • Na festa, não culpe o bolo. A agitação vem do contexto: muitas crianças, empolgação, rotina bagunçada, hora de dormir estourada.
  • Cuidado com a profecia autorrealizável. Se você entra na festa esperando que o filho "surte com açúcar", há boa chance de você enxergar isso — e reagir de um jeito que aumenta a agitação.
  • Se a agitação ou a desatenção da criança é constante, e não só de festa, isso merece conversa com o pediatra. Pode ter a ver com sono, rotina, estímulos — ou, em alguns casos, com um quadro que precisa de avaliação, como o TDAH. Nada disso se resolve tirando o doce.

O resumo

O "pico de açúcar" que deixa criança fora de controle é um dos mitos mais testados da nutrição — e em experimentos duplo-cego, controlados por placebo, ele não aparece. O que aparece é o efeito da expectativa do adulto: quem acredita que a criança tomou açúcar a vê mais agitada e a trata de forma que a agita.

A festa é caótica por causa da festa. E há bons motivos para moderar o açúcar das crianças — só que "hiperatividade" não é um deles.


Fonte

Wolraich, M. L., Wilson, D. B., & White, J. W. (1995). The effect of sugar on behavior or cognition in children: A meta-analysis. JAMA, 274(20), 1617–1621. https://doi.org/10.1001/jama.1995.03530200053037

Hoover, D. W., & Milich, R. (1994). Effects of sugar ingestion expectancies on mother-child interactions. Journal of Abnormal Child Psychology, 22(4), 501–515.

Organização Mundial da Saúde (2015). Guideline: Sugars intake for adults and children.

Aviso

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a orientação de um pediatra ou nutricionista. Preocupações persistentes com o comportamento ou a alimentação de uma criança devem ser levadas a um profissional.


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