Multitarefa não existe: o custo escondido de trocar de tarefa
04 de setembro de 2026 • 7 min de leitura

Responder um e-mail enquanto participa da reunião. Escrever o relatório com o WhatsApp aberto. Estudar com a série passando de fundo. A maioria das pessoas se considera razoavelmente boa em fazer várias coisas ao mesmo tempo — e algumas têm orgulho disso.
O problema é que, para tarefas que exigem atenção, o cérebro não faz duas coisas ao mesmo tempo. Ele alterna rapidamente entre elas, uma de cada vez, e cada troca cobra um preço em tempo e em precisão. O que chamamos de "multitarefa" é, na prática, "troca rápida de tarefa" — e ela é mais lenta e mais sujeita a erro do que fazer uma coisa de cada vez.
Este texto explica a diferença entre o que dá para fazer em paralelo e o que não dá, quanto custa cada troca, e como isso muda a forma de organizar o dia.
O que dá para fazer ao mesmo tempo — e o que não dá
Existe uma distinção importante entre tarefas automáticas e tarefas que exigem atenção controlada.
Você consegue caminhar e conversar, dobrar roupa e ouvir podcast, dirigir por um trajeto conhecido e falar com o passageiro. Isso funciona porque pelo menos uma das tarefas está tão praticada que roda quase sem supervisão consciente.
Agora tente escrever uma mensagem importante e acompanhar o que alguém está falando com você. Ou fazer uma conta de cabeça enquanto lê um parágrafo. Não dá — porque as duas competem pelo mesmo recurso limitado: a atenção controlada, que só consegue segurar um foco de cada vez.
Quando as duas tarefas precisam de atenção, o cérebro não divide — ele reveza. E é aí que entra o custo.
O custo de cada troca
Em 2001, Joshua Rubinstein, David Meyer e Jeffrey Evans publicaram no Journal of Experimental Psychology uma série de experimentos que mediram exatamente isso. Os participantes alternavam entre tarefas simples (por exemplo, classificar números de um jeito, depois de outro), e os pesquisadores cronometravam cada resposta.
O achado central: toda vez que você troca de tarefa, o cérebro precisa "reconfigurar" — descarregar as regras da tarefa anterior e carregar as da nova. Essa reconfiguração leva tempo. Não muito por troca isolada — frações de segundo a alguns segundos —, mas o custo:
- se acumula a cada troca ao longo do dia;
- cresce quando as tarefas são mais complexas ou menos familiares;
- cresce quando as tarefas são parecidas e uma "contamina" a outra.
Estimativas derivadas dessa linha de pesquisa, resumidas pela Associação Americana de Psicologia, apontam que alternar entre tarefas pode consumir até cerca de 40% do tempo produtivo de alguém que trabalha assim o dia todo. Não porque cada troca seja cara, mas porque são centenas delas.
E há um segundo efeito: mais erros. Trabalhar alternando aumenta a taxa de enganos, justamente nos momentos de transição, quando parte da atenção ainda está na tarefa que você acabou de deixar.
Por que parece que funciona
Fazer várias coisas ao mesmo tempo dá a sensação de produtividade — você está ocupado, o tempo passa rápido, há movimento constante. Essa sensação é enganosa. Estudos que comparam desempenho real (não percebido) mostram que a mesma pessoa termina o mesmo conjunto de tarefas mais devagar e com mais erros quando alterna, comparado a fazer em blocos.
Pior: a prática não ajuda. Um estudo de Eyal Ophir, Clifford Nass e Anthony Wagner, publicado na PNAS em 2009, comparou pessoas que se descreviam como "multitarefeiras pesadas" de mídia com pessoas que não. As multitarefeiras pesadas eram piores em filtrar informação irrelevante e em alternar entre tarefas de forma eficiente. Fazer muito não treina a habilidade — parece treinar a distração.
O celular como fábrica de trocas
Boa parte da multitarefa moderna não é escolhida — é interrompida. Cada notificação é uma troca de tarefa involuntária: seu foco pula para o aviso, você decide (mesmo que rápido) o que fazer com ele, e depois precisa reconstruir onde estava.
E não é só quando ele apita. Um estudo de Adrian Ward e colegas, de 2017, mostrou que a simples presença do celular à vista, mesmo desligado e virado para baixo, reduziu a capacidade cognitiva disponível dos participantes numa tarefa de atenção — como se uma parte da mente ficasse "de plantão" para o aparelho. Quem deixava o telefone em outra cômodo se saía melhor do que quem deixava no bolso, que se saía melhor do que quem deixava sobre a mesa.
Há também o que a pesquisadora Sophie Leroy chamou de "resíduo de atenção": quando você larga uma tarefa no meio para pegar outra, parte da sua atenção fica presa na primeira por um tempo — você não chega inteiro na nova.
O que fazer com isso
O objetivo não é nunca alternar — é reduzir as trocas desnecessárias e proteger os blocos de foco.
- Agrupe tarefas parecidas. Responda todos os e-mails de uma vez, faça todas as ligações juntas, em vez de espalhar ao longo do dia. Menos trocas de contexto.
- Trabalhe em blocos de tarefa única. Escolha uma coisa, feche o resto (abas, apps, notificações) e fique nela por um período definido — 25 a 50 minutos já ajuda muito. Depois pausa, depois outro bloco.
- Silencie e afaste o celular durante o foco. Notificações desligadas, aparelho fora do campo de visão — de preferência em outro cômodo. A distância importa.
- Termine ou "estacione" a tarefa antes de trocar. Se precisa interromper, anote em uma linha onde parou e qual é o próximo passo. Isso reduz o resíduo de atenção quando você voltar.
- Reserve a "multitarefa" para o que é automático. Ouvir algo enquanto faz uma tarefa manual repetitiva: tudo bem. Duas coisas que exigem pensar: não.
O resumo
Multitarefa, no sentido de fazer duas coisas de atenção ao mesmo tempo, não é uma habilidade que algumas pessoas têm e outras não — é algo que o cérebro humano simplesmente não faz. O que existe é troca rápida de tarefa, e cada troca custa tempo de reconfiguração e aumenta a chance de erro. O custo é pequeno por vez e enorme no acumulado.
Fazer uma coisa de cada vez, em blocos, com o celular longe, parece mais lento e é mais rápido. A sensação de estar ocupado não é o mesmo que estar produzindo.
Fonte
Rubinstein, J. S., Meyer, D. E., & Evans, J. E. (2001). Executive control of cognitive processes in task switching. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 27(4), 763–797. https://doi.org/10.1037/0096-1523.27.4.763
Ophir, E., Nass, C., & Wagner, A. D. (2009). Cognitive control in media multitaskers. PNAS, 106(37), 15583–15587.
Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain Drain: The Mere Presence of One's Own Smartphone Reduces Available Cognitive Capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140–154.
Aviso
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Dificuldade persistente e acentuada de manter atenção e concluir tarefas pode ter outras causas e merece conversa com um profissional de saúde.
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